A desistência de Jean Carlos (PL) da liderança do prefeito Márcio Corrêa (MDB) na Câmara não é um fato isolado, nem fruto de acaso. É consequência direta de um governo desorganizado, personalista, viciado em marketing raso e absolutamente incapaz de produzir articulação política minimamente funcional.
Não, a saída de Jean Carlos não se explica essencialmente pelo fato de ele ser servidor público nem apenas pela revolta generalizada da categoria, que se sente enganada por promessas descumpridas e por uma gestão que trata seus próprios servidores como estorvo orçamentário. Esse pano de fundo existe, pesa, mas não é o motor central. A desistência foi, antes de tudo, a chance perfeita de pular fora de um grande embuste político no qual ele se meteu ao aceitar ser líder do prefeito, lá no início do mandato, em 2025.
Jean Carlos cansou. Cansou de enxugar gelo, de inventar respostas para perguntas que não tinham resposta, de produzir desculpas para justificar o injustificável. Cansou de tentar sustentar, com retórica, um governo que não se sustenta nem com fatos. Cansou, sobretudo, de ouvir diariamente a mesma ladainha, “não tem dinheiro”, uma desculpa tão repetida que já virou mantra oficial do Paço Municipal.
Na prática, o líder virou um para-raios. Era ele quem apanhava, explicava, remendava, amortecia. Enquanto isso, o prefeito se dedicava ao seu verdadeiro ofício, o protagonismo narcisista nas redes sociais, onde inaugura o que já existia, reinventa o trivial e vende rotinas administrativas como se fossem feitos históricos. Muito vídeo, muita pose, muita legenda motivacional, e quase nada de gestão concreta. Um populismo digital barato, vistoso, mas completamente inócuo.
Cansado desse teatro, Jean Carlos decidiu sair de cena.
E sua saída abriu espaço para que, finalmente, José Fernandes (MDB) conseguisse algum protagonismo na gestão do seu grande amigo, Márcio Corrêa. Até então, Zé Fernandes acumulava apenas tapinhas nas costas, promessas vagas e alguns espaços na área da saúde, setor que, ironicamente, ele também não conseguiu governar.
A saúde virou o espelho mais cruel dessa contradição. Durante quatro anos, Zé Fernandes fez desse tema sua principal bandeira. Criticou, apontou falhas, prometeu mudanças profundas. No governo, acovardou-se. Escondeu-se dentro do mandato de vereador, fugiu do enfrentamento, preferiu o conforto político ao desgaste administrativo. Resultado, os problemas que ele tanto denunciou seguem exatamente onde estavam. Nada mudou, além do discurso, que agora desapareceu convenientemente.
Seu protagonismo atual não nasce do mérito, mas da falta de opções. É uma promoção por exclusão, alguém precisava ocupar o espaço vazio, e o “melhor amigo” estava ali, à disposição. Não é estratégia, é improviso. Não é força política, é remendo.
Enquanto isso, Jackson Charles (PSB) continua cumprindo seu papel de figura decorativa, o vice-líder fictício. Nem mesmo com a saída de Jean Carlos conseguiu assumir a liderança. Segue correndo atrás do próprio rabo, colecionando frustrações e confirmando, dia após dia, a profunda desconfiança que desperta nos bastidores.
A avaliação interna é devastadora, confiar em Jackson Charles equivale a colocar um revólver carregado apontado para a própria cabeça. Sua imprevisibilidade e instabilidade fazem com que o governo, que está em crise de articulação, não se dê ao luxo de apostar nesse tipo de roleta russa.
Trocam-se nomes, rearranjam-se cargos, mas a engrenagem continua emperrada. Falta comando político, sobra vaidade. Falta articulação, sobra marketing. Falta gestão, sobra discurso.



