O Governo de Goiás iniciou uma revisão nas regras ambientais da Área de Proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto, região que envolve a Chapada dos Veadeiros, com o objetivo de discutir a possibilidade de expansão da atividade mineradora em áreas consideradas estratégicas para exploração mineral. Atualmente, quase 500 processos ligados à mineração já estão registrados dentro da unidade de conservação.
A iniciativa começou ainda durante a gestão do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que deixou o cargo no fim de março para disputar a Presidência da República. Hoje, o governo estadual é comandado por Daniel Vilela (MDB).
Segundo informações obtidas pela reportagem, existem ao menos 131 projetos relacionados à pesquisa e exploração de minerais críticos na região, incluindo manganês, terras raras, níquel e cassiterita — materiais considerados estratégicos para a indústria de tecnologia, produção de baterias e armazenamento de energia.
Chapada dos Veadeiros concentra centenas de pedidos minerários
Dados levantados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) apontam que 496 processos minerários foram cadastrados na Agência Nacional de Mineração (ANM) dentro da APA de Pouso Alto. As áreas envolvidas somam cerca de 527 mil hectares ao redor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Entre os projetos em andamento, 31 envolvem terras raras e cassiterita, enquanto outros 98 estão ligados à exploração de manganês. Também há pedidos voltados ao níquel, mineral disputado internacionalmente por grandes potências econômicas.
A área afetada engloba municípios turísticos e tradicionais da região, como Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, o distrito de São Jorge e comunidades quilombolas Kalunga.
Conhecida pelas cachoeiras, trilhas ecológicas e pelo turismo ambiental, a Chapada dos Veadeiros recebe aproximadamente 70 mil visitantes por ano apenas em seu parque nacional, considerado Patrimônio Natural Mundial pela Unesco.
Governo diz que discussão será feita com moradores
A revisão do plano de manejo da APA de Pouso Alto tem como foco alterar as regras atuais da unidade de conservação. Hoje, as normas funcionam como uma barreira para atividades de grande impacto ambiental. A proposta em discussão pretende criar um modelo de compatibilização entre preservação ambiental e mineração.
Documentos internos mostram que a Semad criou um grupo de trabalho específico para discutir a viabilidade jurídica da mineração na região. O entendimento apresentado pelo governo é que a exploração mineral em Áreas de Proteção Ambiental pode ocorrer caso haja mudanças no plano de manejo.
Em nota, o governo estadual afirmou que “está equivocada a premissa” de que exista intenção de flexibilizar a mineração na Chapada dos Veadeiros.
“Não se trata de flexibilizar, mas de se discutir com a comunidade se o exercício da atividade na região é interessante ou não. A Semad tem feito a gestão do território pautada pelo diálogo com os moradores e pelo entendimento de que decisões têm que ser tomadas coletivamente”, declarou a secretaria.
De acordo com a gestão estadual, o processo de revisão está dividido em três etapas, começando por oficinas com moradores dos municípios envolvidos. Depois, as contribuições são apresentadas ao conselho gestor da APA, antes de uma etapa final de devolutiva às cidades participantes.
O avanço das discussões ocorre em um momento de fortalecimento da política mineral em Goiás. Em 2025, ainda sob comando de Caiado, o estado aprovou a criação da Autoridade Estadual de Minerais Críticos e também de um fundo voltado ao setor mineral.
O tema ganhou repercussão nacional após Caiado firmar um memorando de entendimento com o governo dos Estados Unidos sobre minerais críticos. O acordo prevê acesso americano a informações geológicas do estado.
Recentemente, a mineradora americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde, empresa localizada em Goiás e atualmente a única operação de terras raras em atividade no Brasil. A negociação foi fechada em US$ 2,8 bilhões, valor equivalente a R$ 13,8 bilhões.
Especialistas ambientais demonstram preocupação com a possível mudança nas regras da APA. A coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, criticou a proposta.
“Isso estará longe de ser possível se forem efetivadas as alterações no plano de manejo da APA de Pouso Alto que estão sendo propostas em benefício do setor de mineração”, afirmou. “A alteração nas regras dessa área protegida configurará um verdadeiro crime ambiental.”



